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A GANGUE DO MATA-LEÃO

Terror em poucos metros.


Wesley Gimenez


RESUMO


Este artigo trata de uma recente dificuldade encontrada nos arredores do Brás, na cidade de São Paulo. Um grupo de covardes aplicando um famoso golpe marcial, o Mata-leão, para cometimento de crimes e espancamento de cidadãos. A sensação de impotência, a angústia, a revolta, o prejuízo financeiro e emocional exigem que se discuta essa questão.


Não só pelo fato da evidente incapacidade do Estado de lidar com essas situações, mas da pouca vontade política de apoiar o cidadão.


Entre o terror, a indignação e a impotência, é preciso buscar meios de evitar o sofrimento. Sendo possível, todas as precauções devem ser tomadas. Sendo impossível, é preciso ter corpo e mente preparados para causar terror no bandido, em razão proporcional àquele que ele buscava infringir.

 

Palavras-chave: Covardia. Assalto. Agressão. Patrimônio. Indignação.

 


1        INTRODUÇÃO

 

Um dos golpes mais conhecidos no MMA (Mix Martial Arts) é o chamado ?Mata Leão?. Na verdade, o golpe é originado do Hadaka Jime do Judô e a origem do termo ?Mata Leão? não é tão unânime.


Algo interessante vem das representações gregas de Hércules e o Leão de Neméia, em que o Herói, conhecido por sua força descomunal (de onde vem o termo hercúleo para alguém que executa algo com muita força ou esforço), mata o gigantesco Leão por meio de um estrangulamento pelas costas.


Uma outra curiosidade acerca disso está no texto bíblico de I Coríntios 15.32 em que o Apóstolo Paulo afirma ter ?lutado contra feras em Éfeso?. Essa afirmação parece indicar que ele tenha literalmente brigado com um leão ou leopardo em circos na grande cidade da época.


Se esse for o real sentido da fala do apóstolo, e o fato de ele ter sobrevivido para contar a história, é possível que Paulo tivesse aplicado o famoso ?Mata Leão? como forma de escapar da morte, algo já utilizado por guerreiros na história, ao enfrentar semelhantes feras. Ninguém sabe ao certo, mas imaginar um apóstolo de Cristo adepto das artes marciais é, no mínimo, uma imagem mental interessante.


O ?Mata-Leão? é um ótimo golpe para neutralização de um agressor. Em poucos segundos é possível interromper o fluxo de ar e levar o agressor a ?apagar?. Foi o que aconteceu com um importunador sexual em Belém, no Pará. Em um ônibus, enquanto pensava que não haveria reação da mulher à sua frente, o bandido instigava sua libido esfregando-se à moça.


No entanto, em pouco tempo recebeu a reação adequada, foi imobilizado e, ouvindo os aplausos dos integrantes do coletivo, foi ?neutralizado? com um mata-leão que o levou ao ?sono?. Pelo menos até a polícia chegar.


Outro caso interessante do uso do ?Mata-leão? é o do bancário que se livrou de uma tentativa de sequestro aplicando a técnica no bandido. A famosa quadrilha do Pix acabou se dando mal ao tentar levar um cidadão que sabia como reagir. Preso pelo Mata-leão, o bandido perdeu o controle do carro, bateu em um portão e o bando se dispersa correndo.


De qualquer forma, nem sempre o golpe citado é utilizado para uma boa coisa. Recentemente, na região do Brás, em São Paulo, um grupo de homens e mulheres executa ataques covardes a pessoas que circulam pela conhecida área de compras da Capital paulista.


A chamada ?Gangue do Mata Leão? demonstra que, por vezes, o conhecimento de artes marciais nem sempre redunda em um caráter aprimorado, mas, muitos utilizam o conhecimento que deveria ser utilizado para autodefesa como meio insidioso e cruel na prática de crimes.


2        Entre o terror, a indignação e a impotência.


Em uma das minhas recentes interações com fãs no Instagram, uma recorrente resposta deixou clara a percepção de que, em um contexto de violência, a sensação de impotência é a pior parte.


A indignação vem depois do trauma e do terror passados, porém o que fica, em uma constante lembrança e amargo sabor é o sentimento de que nada se podia fazer enquanto se era defraudado, agredido, espancado.


Foi assim com Bruno, um rapaz já entrevistado várias vezes, como amostra da covardia dessa gangue. No seu primeiro dia de emprego ele é cercado, agredido e dilapidado pela gangue violenta. Bruno levou vários chutes e socos e a descrição que faz do assalto demonstra a frustração na sensação de impotência.


A única coisa que ficou no meu bolso foi o RG. Chutaram muitas vezes o meu rosto, minhas costas. Minha perna direita está doendo, meus cotovelos foram arrastados no chão, ficaram ralados. Eu trabalho, estudo, aí vem um cara... Mano, vai fazer a mesma coisa. Vai roubar? Muita, muita sacanagem.


Agora só quando receber para ver se eu consigo comprar um celular novo. É como se eu fosse um bonequinho daqueles de Judas sendo malhado. Não tem muito o que pensar, muita covardia".


A premissa da autodefesa começa na prevenção, mas seu cerne é também a capacidade de reação diante do perigo à vida. Bruno não teria como saber se algum deles estava armado, além das dificuldades óbvias de um combate múltiplo. No entanto, também não teria como saber, após os primeiros atos de violência, se sua vida estava em risco iminente. A decisão de reagir ou não leva microssegundos que parecem uma eternidade.


Por isso, o treinamento em defesa pessoal é tão importante. Não só para ?poder? reagir, mas saber ?quando? e ?se? é viável reagir. Mais do que a preparação do corpo para suportar ataques e efetuar ataques, é preciso treinar a mente para entender quando a melhor saída é atacar e quando é apenas ser capaz de suportar e esperar.


Uma equipe de Televisão monitorou o Brás durante um tempo, observando assim os flagrantes da ação da referida gangue. São atos covardes, utilizando o elemento surpresa, por vezes, a distração da vítima e percepção de que não reagirá. Já acostumados ao senso de violência, os bandidos têm a atitude cruel, sem remorsos e seus limites são poucos, achando, inclusive, prazeroso e fácil empreender tais ações. É uma adrenalina que os motiva a buscar novas vítimas, com cada vez mais violência.


Para as vítimas, mais do que o prejuízo financeiro, a perda da dignidade e a sensação de impotência é a pior parte. Bruno narra que, a pouco mais de 200 metros havia uma base da polícia. Ele se arrastou até lá, ficou mais de duas horas deitado e sofrendo e pouco foi feito em seu auxílio.


A ilusão de que a estrutura do ?Estado? pode proteger o cidadão é confrontada diretamente pela realidade. A normalização da violência faz com que pessoas à volta das ações criminosas simplesmente se encolham, se isentem, afinal, a sensação interna é de alívio (?ainda bem que não fui eu?!).


Não passa despercebida a lembrança da ação do Prefeito Bruno Covas, em 2020, que proibiu o uso do Mata-Leão em abordagens da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar. É triste que, em pouco mais de 2 anos já seja possível perceber que não é possível assinar ?decretos? para que bandidos também sejam proibidos de usar o golpe.


E isso vai encorajando bandidos. Facilitando a vida de delinquentes. Adolescentes são aliciados. A adrenalina na droga, no fazer o que quer, na falta sensação de liberdade. O acesso fácil a bens de consumo sem ter de trabalhar ou se esforçar pra isso. É a lógica da pichação recorrente em muros: ?Fique rico ou morra tentando?! E cada dia mais é o cidadão que morre, pois... o bandido, esse tem quem o defenda.


3        Atitudes preventivas contra violência covarde no meio urbano.

 


O que resta fazer? Se o estado não possui meios de coibir, se a reação é difícil e cheia de critérios de decisão que exigem treinamento e precisão? Quais as saídas a serem oferecidas ao cidadão comum diante de um cenário de terror e impotência?

Resta ser capaz de antecipar-se ao ataque inimigo. A minimizar os riscos e a precaver-se, posicionado corpo e mente para o combate em todo o tempo.


O lugar exige mudar o nível de atenção? Mude! É preciso portar uma lâmina para autodefesa? Porte! É possível não carregar objetos de alto valor ou informações preciosas em lugares de alta periculosidade, movimentação ou com áreas propícias à assalto? Seja cuidadoso! Além disso, outras atitudes podem ser enumeradas:


1)   Evite andar sozinho em locais em que assaltos sejam recorrentes ou que exijam maior cuidado ao caminhar.


2)   Conheça a geografia do local, veja o percurso antes de cruzá-lo em aplicativos ou mapas. Converse com as pessoas antes de se aventurar em locais com maior índice de violência.


3)   Não confie em ninguém, nem subestime qualquer pessoa. Nem por sexo, idade, tamanho, compleição física ou aparência. Não julgue previamente o criminoso pelo estereótipo que vem à sua mente. A cor da pele, o jeito de se vestir, as tatuagens não definem o grau de periculosidade de alguém. Olhe diretamente nos olhos de todos. Olhos firmes, andar rijo, ombros pra trás. Atenção ao ambiente.


4)   Todo lugar tem pontos-cegos. Por isso, cuide de sua retaguarda. Não se distraia. Se notar algo destoante no ambiente. Se o instinto acender um alerta, prepare-se mentalmente para a luta ou fuga. Controle a respiração e busque saídas rápidas.

5)   Use as superfícies espelhadas ao seu redor. Busque locais em que as costas sejam protegidas por um poste, parede, ou por algo sólido, observe o entorno e sempre utilize o espelho de uma loja, o reflexo dos vidros dos carros, as vitrines das lojas, para antecipar ataques surpresa.


6)   Sempre tenha algo pontiagudo nas mãos. Seja uma chave de carro, seja um lâmina-cartão, seja um guarda-chuva ou uma caneta mais rígida. Não é hora para distrações com celular ou outras coisas. É muito melhor passar um pequeno constrangimento e passar por ?paranóico? no meio da rua, do que ser notícia do fantástico sendo filmado o seu espancamento em praça pública, à luz do dia.


De modo algum isso transfere a culpa da violência para a vítima. Não é isso. O criminoso é o único culpado. O alerta, no entanto, busca desenvolver uma mentalidade de combate, de sobrevivência.


E assim, evitar dores futuras e maiores a quem luta todos os dias por uma melhoria na sua qualidade de vida. Que deseja estar íntegro e saudável para sua família. Que deseja proteger a si mesmo, a quem ama e as coisas que possui com o maior grau de eficiência possível.


4        CONSIDERAÇÕES FINAIS


Este artigo discutiu o terror causado pelo conjunto de pessoas denominada ?gangue do mata-leão?. A partir de um contexto acerca do golpe, ficou demonstrado que o mesmo é antigo e foi desenvolvido para a autodefesa.


No entanto, pessoas más se apropriaram dessa técnica para infringir sofrimento e dor em pessoas na região do Brás em São Paulo. E a sensação de impotência e roubo da dignidade gera angústia, revolta e muitos prejuízos financeiros e emocionais.


A prevenção continua sendo a melhor e menos arriscada atitude. No entanto, não só o corpo, mas também a mente devem estar preparados para decidir o que fazer diante de uma situação de violência generalizada como essa. É fácil concluir que a esperança não pode se balizar no estado e na força pública.


?São insuficientes para proteger e servir a todos em todo o tempo. Assim, cabe a necessidade de se adiantar ao conflito e sendo impossível evitá-lo, ser capaz de fazer o bandido se arrepender do dia em que cruzou o caminho de um ?caveira?. Shalom!

 

5        REFERÊNCIAS


BALANÇO GERAL. Bancário dá mata-leão em bandido durante tentativa de sequestro. 01. Fev.2022. Disponível em: https://recordtv.r7.com/balanco-geral-manha/videos/bancario-da-mata-leao-em-bandido-durante-tentativa-de-sequestro-01022022. Acesso em : 04. Ago. 2022.

BOM DIA SP. Sete suspeitos de participação, na 'gangue do mata-leão' do Brás já foram presos pela Polícia em SP; uma menor foi apreendida. 27.Jul.2022. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/07/27/sete-suspeitos-de-participacao-na-gangue-do-mata-leao-do-bras-ja-foram-presos-pela-policia-em-sp-uma-menor-foi-apreendida.ghtml. Acesso em 03.Ago.2022.

DIARIO ONLINE. Mulher aplica mata-leão em tarado após importunação em Belém. 22.Out.2022. Disponível em: https://dol.com.br/noticias/policia/678529/mulher-aplica-mata-leao-em-tarado-apos-importunacao-em-belem?d=1. Acesso em 04.Ago.2022.

FANTÁSTICO. Gangue do mata-leão: veja imagens inéditas da ação de ladrões que atacam, roubam e agridem vítimas no Brás, em São Paulo. 31.Jul.2022. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/07/31/gangue-do-mata-leao-veja-imagens-ineditas-da-acao-de-ladroes-que-atacam-roubam-e-agridem-vitimas-no-bras-em-sao-paulo.ghtml. Acesso em 03. Ago.2022.

ISTO É. ?Gangue do mata-leão? assalta, espanca e aterroriza pedestres no Brás. 26. Jul.2022. Disponível em: https://istoe.com.br/gangue-do-mata-leao-assalta-espanca-e-aterroriza-pedestres-no-bras/. Acesso em 03.Ago.2022.

JUDOCTJ. Mata-Leão. Disponível em: http://www.judoctj.com.br/mata-leao/. Acesso em 02.Ago.2022.

MARQUES, Julia. Prefeitura de SP proíbe "mata-leão" em abordagens da GCM. 10.Set.2020. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/prefeitura-de-sp-proibe-mata-leao-em-abordagens-da-gcm,cd9e607e061a4f8724ec33f44ed11b54ofsius6c.html. Acesso em : 04.Ago.2022.