Mais que só mentiras
Wesley Gimenez
Este artigo comenta o emblemático e, agora, alvo até mesmo de documentário do Discovery, caso Johnny Depp e Amber Heard. Para além do exame da mera questão ligada à defesa pessoal (como se defender de uma mulher violenta?
Ou , como se defender quando o agressor é famoso?) há que se examinar a questão sob o prisma do prejuízo para a saúde mental, física e espiritual causado por uma relação em que a violência é escalada. Quando o ambiente favorece agressões.
Quando vítima e agressor pode ser a mesma pessoa apenas alternando papéis e circunstâncias. A verdadeira ?roupa suja? lavada em público teve um fim triste, e sem verdadeiros ganhadores. Essas perdas e feridas foram causadas por diversas agressões mútuas, que pouco têm exatamente de ?fisicas?, mas que geraram grandes dores, sobre as quais vale a pena prevenir o leitor.
Palavras-chave: Toxicidade relacional. Mentiras. Intrigas. Julgamento. Difamação.
Em Outubro de 2017, um movimento iniciado em uma postagem da Atriz Alyssa Milano, contra as horríveis denúncias de assédio tributadas a Harvey Weinstein, grande executivo de Hollywood, abalou o centro de poder do cinema, bem como revolucionou, por meio da internet a questão das tratativas acerca de abuso, assédio e violência sexual, principalmente. O Movimento #MeToo fez um grande rebuliço e fez com que muitas mulheres tivessem coragem de denunciar os abusos sofridos.
De acordo com a rede de notícias BBC, nos primeiros 3 meses do movimento houve um aumento de quase 25% (1/4) nas ligações denunciando abusos a Rede Nacional de Denúncias de Estupro, Abuso e Incesto nos Estados Unidos. Apenas no dia seguinte à publicação de Milano, a hashtag havia subido 600 mil vezes. Durante este tempo, vários lugares do mundo e instâncias da sociedade foram influenciadas pelo movimento. Um dos pontos marcantes foi que homens também denunciaram ser alvos de assédio e violência, famosos inclusive, como os atores Terry Crews e Anthony Rapp.
E o que isso tem a ver com o caso Depp/Heard? Bom! Foi no frenesi deste movimento que Amber Heard, em 2018, escreve em um artigo do Washington Post ter sido vítima de violência doméstica. Ainda que não tenha citado o nome de Johnny Depp, foi fácil ligar a declaração ao ator, de quem Heard se divorciou em 2016. Essa declaração gerou um popular ?cancelamento? para Depp, que perdeu papéis e foi retratado como um grande vilão.
Na toada deste cancelamento, o Jornal The Sun publicou uma matéria que chamava Depp de ?espancador de mulheres?. O ator processou o jornal no Reino Unido e perdeu o direito de recorrer da sentença do Juiz Andrew Nicol, da alta corte de Londres. Depp então processa Amber Heard por difamação, quando Amber se coloca, no Washington Post, em 2018, como um caso público de violência doméstica.
Estrategicamente, Depp prefere o julgamento nos EUA, na Virgínia, utilizando o local de impressão do Jornal, bem como o fato do Jornal ter 2 escritórios no estado. Em 11 de Abril começa uma verdadeira guerra midiática envolvendo relacionamento abusivo, violência doméstica, transtornos emocionais e de relacionamento do cinema americano.
Ao analisar ?violência doméstica?, sob a ótica da defesa pessoal e da segurança deve-se sempre buscar não criar pré-conceitos. A ideia de que ?sempre? a mulher é a vítima e o homem é o abusador, nem sempre é a realidade dos fatos, embora, em sua maioria, dentro de uma relação abusiva, é mais comum haver mulheres sendo oprimidas.
Deve-se, no entanto, evitar o erro de pré-julgar. Além de injusto, traz uma estigmatização que deve ser combatida em todas as esferas. Não se pode estigmatizar uma pessoa por sua cor, seus traços físicos, sua religião ou seu modo de vestir. Deveríamos, então, estigmatizá-la por seu sexo biológico? Se for homem, já é presumivelmente um agressor?
Se for mulher, já é presumivelmente frágil e vítima? Nenhum ponto de vista racional criaria tais categorias de forma tão peremptória.
No caso Depp-Heard, a acusação de difamação expôs seis anos de um relacionamento conturbado. Laurel Anderson, ex-conselheira matrimonial de Heard e Depp classificou o relacionamento dos dois como ?abuso mútuo?. Shannon Curry, psicóloga convocada por Depp classificou Amber como portadora de transtorno de personalidade limítrofe e transtorno de personalidade histriônica. A psicóloga Dawn Hughes, contratada por Amber, contradisse a colega dizendo que os sintomas são de Stress pós-traumático devido ao relacionamento com Depp.
Os dois foram acusados reciprocamente de comportamentos, no mínimo, reprováveis e violentos. O abuso do álcool e drogas esteve presente nas acusações mútuas, o que desnuda um estilo de vida que propicia um ambiente que facilita exageros, agressões e discussões amplificadas pela drogadição. Depp se defende dizendo que nunca bateu em uma mulher na vida. Amber ataca dizendo que foi vítima da violência e dos abusos de Depp.
Quem é o ?monstro?? Como definir de quem é a culpa diante de tantos áudios, vídeos, testemunhos e provas que destacam um relacionamento conturbado a esse nível? Quem é o ?mocinho? e o ?bandido? nessa história. Obviamente, tal dualismo não faz parte de uma análise racional do caso. Não existem esse tipo de maniqueísmo (ideia do século II que pregava a eterna briga entre o bem e o mal absolutos).
O que temos é um casal em conflito. Um enredo de mentiras, provavelmente de ambos os lados. Analistas de microexpressões faciais investigaram os depoimentos, e embora não possam ser validados, pois serviram apenas para estudos de caso não-oficiais e recreativos, o final desta história corrobora com as análises e inferências feitas. Amber Heard realmente difamou Johnny Depp, porém, isso não quer dizer que Johnny seja ?inocente?. Como disse antes, em um conflito doméstico desta intensidade e neste ambiente, não há mocinhos e bandidos. O #MeToo não funcionou aqui, e a estigmatização do ?macho opressor? também não.
Contudo, creditar a Amber Heard o título de ?monstro? mentiroso, cruel, violento, manipulador e cínico seria cair em preconceitos e estigmas injustos.
Do ponto de vista jurídico, o julgamento terminou com sucumbência mútua. Os dois saíram penalizados pelo Júri. Amber teve o maior prejuízo e isso soou como vitória de Depp. No entanto, os efeitos reflexos da disputa são maiores que os milhões de dólares que ambos terão que pagar reciprocamente. As discussões acerca de quem está falando a verdade dividem-se entre simpatizantes dos dois.
Ademais, a ala feminista vê uma perda política que pode gerar um status de ?impunidade? ao ?macho opressor?. Já outro lado vê a demonstração de que a toxicidade na relação e o abuso doméstico não pode ser creditado apenas ao homem, havendo sim uma relação tóxica que pode ser mútua.
O resultado do julgamento trará um estigma a Amber Heard. Ela se tornou uma ??mulher-bomba?. Ambos foram ao tribunal esperando provar que estavam certos. Não conseguiram. Tentaram provar que o outro era o errado. Também não conseguiram. O que era para ser uma discussão amigável virou uma guerra com baixas de ambos os lados.
Carreiras, mentes e corações feridos. A violência existente na relação é uma consequência do ambiente carregado de toxicidade. Amber será encarada como a louca violenta. Depp sempre terá à sua sombra, não só os prejuízos já colhidos, mas também restará a dúvida se ele realmente é um agressor. Depp é um monstro ou uma vítima? Quem difamou agiu pelo instinto de autodefesa? Quem reagiu às agressões? Amber ou Depp? O óbvio é que ambos saíram feridos, no corpo e na alma.
Estar em uma relação abusiva gera feridas para cada um dos componentes desta relação, e , indiretamente, a todos que estão à sua volta. O ambiente de contínuo conflito escala cada vez mais o nível de violência, tanto física quanto moral. Dessa forma, quando não se possui uma mente capaz de esfriar os momentos de conflito, ou ainda quando se está totalmente envolto em névoas mentais causadas pelo abuso do álcool ou de substância psicoativas, o nível de periculosidade sobe.
A mulher, sendo mais frágil, pode ser agredida, contudo, estando em estado emocional alterado, pode ser a agressora.
O que resta, ao final é a infelicidade e muitas feridas. O Objetivo da defesa pessoal, seja aquela que protege teu corpo das agressões físicas, seja a que protege tua mente das agressões psicológicas é que você sobreviva, que volte para casa vivo.
Se justamente é a sua casa o lugar em que as feridas são feitas, como você pode se proteger? A melhor forma é a prevenção. A capacidade de escutar, dialogar, conciliar. Evitar o confronto antes que este aconteça. Ser capaz de controlar mente e emoções, não entregando-se à provocações, nem permitindo-se sequestrar-se pelo ambiente impregnado de ódio e infelicidade.
As mentiras se tornam difamações. As difamações viram agressões. As agressões suscitam o ódio. O ódio destrói de dentro para fora. E essa destruição gera a morte. Se não física, ao menos a psicológica. Saiba se defender também nos seus relacionamentos. Não viva em ambientes tóxicos. Previna-se de relacionamentos abusivos. Não estigmatize ou julgue tudo com base em pré-conceitos. Enfim, até nas questões domésticas, amorosas e familiares é preciso ser caveira.
Este artigo trouxe uma visão, a partir do caso Johnny Depp e Amber Heard, sobre a toxicidade nas relações e sua implicação para a autodefesa, tanto do corpo quanto da mente. Independentemente dos posicionamentos a favor ou contra um ou outro famoso, a guerra midiática do caso trouxe lições a serem aprendidas. Não há mocinhos ou bandidos. Homens e mulheres têm parcela de culpa nas relações tóxicas que permitem-se adentrar. Um ambiente toxico e cheio de abusos gera cada vez maiores problemas de interação. A explosão e a raiva são inimigas da razão.
Além de tudo isso. Por mais que se ganhe milhões em ações judiciais por difamação. Há prejuízos que vão além do dinheiro. A credibilidade, confiança, empatia, simpatia , admiração a pessoas que se envolvem em brigas públicas gera infinitamente mais desgostos que todo dinheiro gasto no tribunal. Prevenir-se também na escolha de suas relações faz parte da conduta acertada de alguém que quer viver longe de violência e problemas. Que queira viver, literalmente o significado da palavra ?Shalom?: Paz!
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