COMUNICAÇÃO NÃO-VIOLENTA, FUNCIONA?
?Como? eu digo é mais importante que ?o quê? eu digo.
Wesley Gimenez.
RESUMO
Este artigo trata de um tema em alta: Comunicação não-violenta. O objetivo geral é destacar a necessidade de uma comunicação que seja ao mesmo tempo empática e assertiva. Capaz de influenciar a ações positivas e a evitar o escalonamento das emoções negativas que antecedem o confronto. Tanto na mediação de conflitos quanto em diversas outras áreas, o ?como? falar tem maior peso que ?o que? falar.
De modo que, conclui-se que a comunicação não-violenta é ferramenta que auxilia no esfriamento dos ímpetos agressivos, criando vínculo e empatia e gerando uma forma de precaução, tanto na proteção contra o stress em discussões e debates quanto na argumentação e persuasão de pessoas em ânimo exaltado. Comunicação não-violenta também é defesa pessoal.
Palavras-chave: Comunicação. Emoções. Estresse. Assertividade. Empatia.
A pandemia e o isolamento social trouxeram diversos efeitos colaterais. Dentre eles uma pré-disposição, diante de uma tela do computador, de não se usar filtro algum nas opiniões e posicionamentos a respeito dos mais diferentes assuntos. Pessoas, antes receosas, passaram a agredir umas as outras com a ferocidade de lutadores. Jargões, frases feitas e diversos meios de ofensas são utilizados livremente.
O stress da ausência do convívio social, do entretenimento, também ocasionou um aumento nas agressões físicas e verbais no ambiente doméstico. Já tratamos disso em outro artigo. Essa facilidade em utilizar palavras fortes, expressões violentas, injúrias e impropérios cria um ciclo de animosidade e prejudica as relações.
Arun Gandhi[1], neto do lendário Mahatma Gandhi, prefacia o célebre livro de Marshal Rosenberg destacando sua relação com o Avô e repassando as lições de um velho sábio sobre como o ser humano é violento por natureza, e que diariamente cometemos diversas violências ?passivas?, ou seja, atitudes que, de modo direto ou indireto desencadeias reações negativas e em maior escala levam a ações violentas.
Poucas pessoas tiveram tanta influência utilizando princípios de não-violência quanto Mahatma Gandhi. Martin Luther King Jr. se inspirou nele, Nelson Mandela chega a dizer, sobre Gandhi ?Num mundo guiado pela violência e conflito, a mensagem de paz e não-violência de Gandhi detém a chave para a sobrevivência humana no século 21?. [2]
Isso não quer dizer que Gandhi fosse o tipo vitimista. O próprio Mandela e outros como Luther King e Jesus sabiam combinar o poder da não-violência e a força de uma personalidade forte combinada com uma posição firmemente defendida. Mandela diz que Gandhi combinavam ética e moral com uma férrea disposição em rejeitar concessões ao opressor. Isso significa que há como comunicar-se de forma não-violenta e ao mesmo tempo ser alguém que não recua, mesmo sob a mais forte ameaça.
Pensando na capacidade de se comunicar de forma positiva e ao mesmo tempo manter serenidade, demonstrar força e resolutividade, firmeza de caráter e opiniões sem precisar agredir ou humilhar o próximo é que a comunicação não-violenta surge ensinando a manter a humanidade, mesmo em meio a situações em que o lado animal tenta falar mais alto.
Marshal B. Rosenberg era um admirador de Gandhi, de forma que concebeu o conceito de comunicação não-violenta a partir de seus estudos sobre linguagem e comunicação e associou-os ao conceito de não-violência do mestre indiano, que tinha a não-violência como ?nosso estado compassivo natural quando a violência houver se afastado do coração?.[3]
A partir desse primeiro conceito, Rosenberg traçou toda uma base que se fundamenta na premissa de se manter ?humano? mesmo nas condições mais adversas. Essa abordagem lembra que a ferocidade humana é intrínseca, ou seja, nossa natureza tende à incivilidade mais do que à civilidade. Somos seres egoístas buscando a satisfação própria, no entanto, é possível desenvolver hábitos, habilidades e um posicionamento racional e empático em relação aos outros. É isso que a comunicação não-violenta pretende.
A CNV possui 4 pilares: Observação, sentimento, necessidades e pedido. O primeiro exemplo que reúne esses quatro pilares, utilizados por Rosenberg é muito interessante. Imagine a seguinte cena: Sua mãe chegando em casa do trabalho e te vendo jogado no sofá, tênis para um lado, meias para outro, toalha molhada na cama. A irritação toma conta dela e você já a está vendo pegar o chinelo.
E se ela te dissesse, de modo firme, mas sem gritos: Wesley! Toda vez que chego e você está no sofá, coisas estão no chão e a toalha molhada na cama, fico irritada. Eu quero a casa limpa, por isso me esforço tanto. Você poderia colocar as coisas no lugar? Como isso soaria a você? Agressivo? Acho que não.
Basicamente a mãe observou a cena, destacou seu sentimento em relação a isso, descreveu suas necessidades (manter a casa limpa) e fez um pedido. Poucos filhos se arriscariam a não arrumar a bagunça, mesmo não tendo violência nessas poucas frases. Essa é a premissa da CNV, mas é claro que há muito mais que isso.
A comunicação não-violenta é estudada em diversas áreas, inclusive a forense. Uma das áreas em que se explora esse assunto é a mediação e arbitragem. O conflito nem sempre é negativo, por vezes, seu resultado é positivo, desde que haja a capacidade de articulação de ideias e uma busca pela relação ganha-ganha, ou seja, a que as duas partes aceitam termos favoráveis a todos.
Nesse sentido, a capacidade de manter o equilíbrio e uma comunicação não-violenta no processo de negociação é essencial para o sucesso da mediação. Seja em questões mais delicadas, seja em atividades corriqueiras. A comunicação não-violenta está muito ligado ao conceito de empatia, que por sua vez, difere-se da ideia de simpatia.
Ser empático, segundo a Doutora em Direito e Sociologia Cristiane de Souza Reis[4], é ?compreender as necessidades e interesses do outro e de si próprio, mas não implica ter que concordar com as mesmas?. Difere de ser ?simpático? que, geralmente, tem uma ideia de concordância. A empatia busca ?colocar-se no lugar do outro?, sem, contudo, retirar a sua própria percepção da realidade e sem anular suas próprias considerações acerca dos fatos e de todo o contexto.
Martin Seligman[5], um autor que cito sempre quando se relaciona a assuntos psicológicos e sociais, descreve em um de seus brilhantes trabalhos que quando soldados foram submetidos a testes de resiliência social, sofrer e observar pessoas sofrendo ativavam áreas cerebrais de forma semelhante, mas não idêntica.
Dessa forma, o conceito de neurônios-espelho que facilitam a percepção do que o outro está sentido, também traz o aprendizado da diferenciação em relação ao nosso próprio sofrimento.
Ser empático é essencial, ser simpático não. Comunicar-se de forma não-violenta não significa abaixar a cabeça em posição de ?humildade e resignação? ou concordar com tudo. A CNV ensina que é possível dizer coisas difíceis e duras de se ouvir sem causar emoções negativas no outro, sendo capaz de interagir em negociações, mediações, conflitos ou até mesmo em uma roda de amigos sem causar estresse por comentários ou a exposição de uma ideia de forma errada.
Não existe ?Crítica construtiva?. Isso é um oxímoro, ou seja, uma contradição de termos. Se é crítica, não pode ser construtiva. A comunicação não-violenta ensina a dialogar a partir da nossa percepção, em uma observação inicial sem julgamentos, apenas analisando fatos, depois uma capacidade de expor os sentimentos gerados pelo diagnóstico, destacar a necessidade de mudança (se esse for o caso) e fazer um pedido positivo, de uma ação que implique em um resultado ganha-ganha.
Rosenberg destaca muito a necessidade de aprender a observar sem julgar. Somos recheados de ?avaliações?, ?comparações? e pré-julgamentos. A nossa capacidade de dialogar tem que iniciar por uma observação atenta dos fatos sem avaliações prévias. A partir daí, buscar o conhecimento (de si mesmo e do próximo) o auxiliará na hora de ?esfriar? uma situação quente e que parte para uma conclusão agressiva.
Reis oferece 4 elementos que auxiliam a ser empático: 1) Escutar antes de falar, 2) Linguagem não verbal e paraverbal, 3) Não Julgar e 4) Rapport. Em síntese, a escuta deve ser ativa, e não passiva, ou seja, ouvir buscando entender, participando com toda a atenção da narrativa dos fatos e argumentações com todo o interesse. Cruzar os braços (Não-verbal) ou aumentar o tom de voz (paraverbal) são formas de aumentar o risco de uma escalada nas emoções negativas.
A capacidade de não oferecer pré-julgamentos, não importa a situação pode ajudar na tomada de decisão, seja você o mediador, o árbitro, o juiz do conflito, ou parte dele. O Rapport, ou melhor, a conexão existente no momento dos ânimos a se exaltarem é o diferencial na resolução de conflitos. Receber de forma positiva as emoções do outro e entendendo seus motivos (ainda que não concorde com eles) facilita o esfriamento da situação e a melhor resolução dos conflitos e problemas.
Lembro que certa vez, enquanto cuidava de um pavilhão com centenas de presos, estes começaram a exaltarem-se, reunindo-se próximos à área de acesso do pavilhão e reivindicando a presença de toda a ?chefia?. Ao tentar conversar com eles, vários presos, exaltados, incentivavam os outros a reclamarem e a falarem ao mesmo tempo. Eu estava em uma ?zona quente?. Precisava reduzir a temperatura do ambiente.
Escolhi um dos presos que mais se destacava e pedi que ele falasse, contasse sua história e suas reclamações. Conforme ele falava eu fazia questionamentos, mas buscava uma escuta ativa, sem pré-julgamentos. Observei que a atenção estava voltada para a conversa e os ânimos haviam diminuído, pedi para dois ou três presos se manifestarem sobre o assunto, um por vez.
A conversa foi se estendendo. Os agitadores foram se dispersando. Disse que eles pularem a minha autoridade e requerem superiores era o mesmo que dizer que eu não podia resolver nada. Alertei que meu objetivo era fazer o meu trabalho da melhor forma possível e pedi que eles formalizassem a queixa em forma de bilhetes a serem encaminhados ao setor responsável.
Sem dar conta de que isso era comunicação não-violenta, vi os presos aceitarem a sugestão, agradecerem a atenção e ainda pedirem desculpas por terem se exaltado.
Se eu tivesse escalonado o tom agressivo o resultado poderia ser totalmente outro.
Ao final, após perceberem que estavam fazendo ?tempestade em copo d?água? e na verdade havendo apenas uma necessidade latente por ?ser ouvido?, os presos reduziram todas as reclamações a duas ou três linhas em um papel dizendo que ?nem era tão urgente assim?. Em suma, percebe-se que buscar a CNV pode ser uma forma de diminuir as chances de conflitos e agressividade.
É claro que não se trata de uma fórmula mágica, mas são os passos preventivos antes da necessidade de se utilizar técnicas de defesa pessoal.
Na busca pela sobrevivência urbana, ter uma mentalidade preparada para o conflito, sendo capaz de administrar o antes, o durante e o depois, pode ser muito mais eficaz do que ter o corpo mais bem preparado para a guerra.
Este artigo conclui que a comunicação é uma ferramenta, tanto de autoconhecimento, pois exige preparação e capacidade de comunicação, preparo psicológico e desenvolvimento de empatia, quanto de conhecimento acerca da natureza humana e do conflito.
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A CNV favorece, assim, um meio preventivo de esfriar os ânimos exaltados pelas discussões ou situações de stress, facilitando a negociação ou minimizando o potencial para a violência, seja ela verbal ou física.
Para exercitar a CNV não é preciso ser simpático, nem mesmo concordar com tudo, porém é preciso que se tenha em mente uma neutralidade quanto ao julgamento, sendo necessário observar o ambiente e a situação sem uma avaliação anterior. Dessa forma, tanto a empatia quanto a conexão com os sentimentos dos envolvidos facilitaram uma resolução em que todos ganhem.
No mais, para ?todas as outras coisas? (necessidade do uso da violência como contenção de risco maiores) existe o Krav Maga. Shalom!
REFERÊNCIA
AGÊNCIA ESTADO. Mandela propõe inspiração em Gandhi na busca pela paz. 29.Jan.2007. Disponível em: <https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,mandela-propoe-inspiracao-em-gandhi-na-busca-pela-paz,20070129p22767> Acesso em 20. out.2021.
REIS, Cristiane. De Souza. A empatia na mediação: a contribuição da comunicação não violenta: Empathy in Mediation: The Contribution of Nonviolent Communication. J² - Jornal Jurídico, v. 2, n. 1, p. 3-24, 29 Fev. 2020.
ROSENBERG, Marshal B. Comunicação não-violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
SELIGMAN, Martin. Florescer: uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
[1] ROSENBERG, 2006.
[2] AGÊNCIA ESTADO, 2007.
[3] ROSENBERG, 2006, p.23
[4] REIS, 2020.
[5] SELIGMAN, 2012