DEPENDÊNCIA DIGITAL
Autodefesa no universo virtual.
Wesley Gimenez.
RESUMO.
Este artigo apresenta uma reflexão sobre a dependência digital, ou nomofobia. Essa necessidade doentia por se manter conectado, fazendo do smartphone um ?deus? ou uma espécie de ?droga? traz consequências e efeitos danosos à vida de cada um dos que são afetados por ela. Dessa forma, a mente, capacidade de julgamento, emoções e decisões são guiadas por uma irracionalidade, uma completa virtualização da vida e do tempo, abrindo portas para ações criminosas e aproveitadores.
É preciso desenvolver uma mentalidade nova, que se distancie da dependência e encare a realidade, sem cair nas armadilhas do excesso de conectividade, onde o tempo se esvai e não há progressão, apenas prejuízos em diversos aspectos. O equilíbrio é ponto central nas artes marciais e de defesa, e o será também em um mundo cada vez mais conectado e cheio de armadilhas, reais e virtuais.
Palavras-chave: virtualização. Nomofobia. Tecnologia. Dependência. Vício.
Nomofobia é o nome técnico que se dá a quem tem um medo irracional de ficar sem celular. A expressão ?no-mobile?, que deu origem ao termo, foi utilizada pela primeira vez em um artigo da UK Post Office[1], que também utilizou ?nomo? como abreviatura, dando forma à doença que caracteriza esse pânico da ausência do aparelho celular.
Essa discussão conduz a inúmeras reflexões, desde a estrita dependência da tecnologia, como algo que pode afetar a cognição, sentimento e julgamento das pessoas, quanto sobre a vulnerabilidade dos viciados em tecnologia em serem vítimas de criminosos virtuais e aproveitadores dessa dependência nociva que afeta tantas áreas da vida do dependente.
Iniciaremos nossa discussão a partir dos efeitos causados pela nomofobia. Essa dependência transcende a preocupação com os aspectos sociais e psicológicos e adentra a perspectiva da defesa pessoal quando altera a capacidade de julgamento da pessoa entre aquilo que é virtual e real, aquilo que pode escravizá-la ao ponto de sua saúde física e mental ser negligenciada, fazendo-a presa fácil dos ?lobos?.
Recordemos que a alienação é um perigoso modo de vida e de enxergar a realidade que nos cerca. Por vezes, o cyberespaço é uma rota de fuga para uma realidade cruel ou monótona, contudo, leva também a riscos que podem operar na vida real um grave prejuízo. Dessa forma, aprender sobre tais riscos faz parte da defesa de sua integridade mental e física e adentra no escopo de uma mentalidade que se pretende ser ?caveira?.
Segundo a Reitora do Instituto de Tecnologia da UnB, Jane Faria Chagas, o mundo virtual oferece benefícios e riscos, dentre os quais se destaca exatamente a dependência do ciberespaço e do consumo de informações a partir da mediação tecnológica.
?Há um aumento na dependência de consumo de informações (seja pela exposição pessoal, medo de ficar desatualizado ou perder algum evento importante) que pode levar a um estado permanente de ansiedade, expectativa e estresse.
Essa nova modalidade de vício pode prejudicar as relações de trabalho, de estudo e as interações interpessoais, e favorecer o desenvolvimento de patologias e disfunções[2]
A nomofobia é um claro exemplo dessa dependência nociva. Aqueles que se encontram dependentes do celular utilizam os mesmos argumentos que um usuário de drogas. Não conseguem ficar sem, temem andar nas ruas sem o aparelho, sentem-se inseguros. Estudantes ficam ansiosos, possuem menos interesse no processo de ensino-aprendizagem, tornam-se alienados ao mesmo tempo em que se dizem ?antenados? a tudo.[3]
Alguns estudos já discutem a questão da dependência virtual como um transtorno mental. Os espaços virtuais passam a ser veículo de fuga da realidade, das angústias, medos e depressões[4].
Assemelham-se, de diversas formas a vícios como drogas e álcool e nesse sentido, geram uma dependência cada vez maior, ao ponto de causar reações típicas de ?abstinência? caso o usuário fique sem o aparelho ou a conectividade.
O site computerworld.com[5] descreve seis tipos de doenças causadas pela dependência e abuso da tecnologia. Além da nomofobia (medo de ficar sem celular), há o risco de depressão, insônia, problemas na coluna e auditivos, sem falar na estranha ?síndrome do toque fantasma?, que, segundo o site, é a sensação de que o celular está vibrando ou tocando sem que isso esteja acontecendo.
Deve-se observar que, além dos eventuais riscos à saúde mental e física, há a questão da segurança na rede e os diversos tipos de crimes cibernéticos.
O mundo em que até mesmo o dinheiro é virtual, e que informações valem mais que ouro ou qualquer moeda existente, é preciso haver um cuidado ainda maior. Nomes como ransomware, malware, spyware, phishing, eram desconhecidos até poucos anos atrás.
Os crimes cibernéticos se dividem em duas categorias. A categoria 1 inclui: o phishing, o roubo ou a manipulação de dados, o roubo de identidade e a fraude no setor bancário ou de comércio eletrônico e categoria 2: ?o assédio, a violência contra crianças, a extorsão, a chantagem, a manipulação do mercado de valores, a espionagem empresarial ou a execução de atividades terroristas na internet?[6].
Essas são apenas algumas preocupações na interação entre o virtual e o real. O crime se reinventa e se moderniza na velocidade da internet. Não estou fazendo apologia de um retorno à idade da pedra, mas a necessidade de utilização saudável do ciberespaço e a percepção de que, tanto no mundo real quanto no universo virtual há necessidade de uma mentalidade caveira, que perceba os riscos associados e saiba agir apropriadamente.
Outro aspecto que causa preocupação na questão envolvendo a dependência virtual é a gradativa mistura entre o que é real e o que não é. Um anime japonês, popular entre jovens explorou muito bem a temática e seu sucesso reflete o quanto isso tem muito sentido.
SwortArtOnline é um anime em que um jogo de imersão virtual leva adolescentes a uma outra vida, outros mundos e outras realidades dentro do ciberespaço.
Contudo, suas ações e interações com outras pessoas nessa dita ?realidade paralela? traz graves consequências na vida real, inclusive com respeito a ideia de crimes, violência de diversos tipos e os efeitos nocivos da exposição contínua, como tratado aqui.
É uma história pesada, cheia de altos e baixos e de forte impacto psicológico. Uma das falas de Kirito, o herói do anime revela o perigo e a atração dos jogos online e a dependência da realidade virtual, como aqui tratados.
O jogo SAO mencionado na fala, trata-se de um jogo de imersão em realidade virtual que se torna mortal devido a ação de criminosos no ciberespaço. A dependência do SAO é notória, mas ainda se pode notar diversas outras questões, tais como a angústia do real, a falta de perspectiva, a fuga da realidade, a necessidade de fortalecimento mental.
? Talvez o sentimento de não me adaptar tenha sido uma das coisas que me levou para os jogos online. Um mundo virtual, onde ninguém se conhece de verdade. Eu entrei de cabeça naquele fantástico mundo. Mas os meus dois anos no SAO me ensinaram algo diferente. Não há nenhuma diferença entre o mundo real e o mundo virtual. Não faz sentido perguntar para alguém quem ela realmente é. Tudo que podemos fazer é acreditarmos nelas.?[7]
A confusão gerada entre o que real e o que é virtual só destacam a necessidade de se adotar uma perspectiva diferente. A dependência virtual pode custar algo que não pode ser comprado: tempo. Talvez você já esteja pensando ?tempo é dinheiro?. Contudo, não há engano maior. Tempo não é dinheiro[8]. Tempo é vida. E vida vale mais que dinheiro.
Dessa forma, o tempo ?perdido? no acesso exacerbado ao mundo virtual em detrimento às atividades reais, bem como a dependência dessa conectividade e interação podem roubar de você algo que não pode ser reposto, e que vai de destruindo tanto quanto qualquer droga sintética. É preciso reagir a isso. Como um verdadeiro ?Caveira?.
Este artigo trouxe ponderações e informações sobre a dependência virtual. Foi possível destacar a necessidade de um cuidado permanente com a quantidade de tempo que se passa imerso no ciberespaço bem como a qualidade desse tempo. Os efeitos foram destacados e a palavra ?nomofobia? foi aprendida, observando-se que o pânico causado pela ausência do aparelho celular tem as mesmas conotações da dependência química.
Além dessas tratativas é sempre bom reforçar que atitudes no mundo virtual tem reflexo no mundo real. Podemos até dizer, como o personagem famoso do anime, que, em essência, não há diferença entre um e outro. Dentro do mundo virtual há boas pessoas, com ótimas intenções e verdadeiros demônios em forma humana, agindo com propósitos maléficos e que precisam ser combatidos.
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Dessa forma, a mentalidade de um caveira vai se atentar também àquilo que faz no ciberespaço e avaliar o quanto é dependente dele. Além disso, utilizará os recursos tecnológicos como impulso para benefícios diversos, para si e para outros. Uma mentalidade caveira não se deixa iludir ou se arrastar para uma ?realidade paralela?. Não pode ser vítima de uma alienação nociva. Os pés sempre estarão no chão e a mente sempre focada. Guarda Alta, sempre! Shalom!
REFERÊNCIAS
AABB COMUNIDADE. Mundo Virtual: Benefícios e Consequências. 16.Nov.2018. Disponível em: < https://www.aabbcomunidade.com.br/mundo-virtual-beneficios-e-consequencias/> Acesso em 04.Nov.2021.
BARBOSA, Christian. Tempo não é dinheiro. Disponível em: < https://hdibrasil.com.br/conteudo/tempo-nao-e-dinheiro> Acesso em 04.Nov.2021.
COMPUTERWORLD.COM. 6 doenças causadas pelo uso desenfreado da tecnologia. 20.Mai.2018. Disponível em: <https://computerworld.com.br/sem-categoria/6-doencas-causadas-pelo-uso-desenfreado-da-tecnologia/> Acesso em: 04.Nov.2021.
SANTOS, Camila. O uso problemático de jogos eletrônicos em Swortartonline. 14.mar.2021. Disponível em: < https://minutootaku.com/noticias/games/o-uso-problematico-de-jogos-eletronicos-em-sword-art-online/> acesso em 05.Nov.2021.
SILVA, Ricardo Leopoldo da. VIEIRA, Anderson. Segurança Cibernética: O Cenário Dos Crimes Virtuais No Brasil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 04, Vol. 07, pp. 134-149. Abril de 2021. ISSN: 2448-0959
GORZA, Marcelo de Souza; BECHER, Gabriel. Dependência virtual: um olhar fenômeno-estrutural sobre a compulsão digital. Revista Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, v. 9, n. 1, p. 73-93, 2020.
[1] COMPUTERWORLD, 2018.
[2] AABB Comunidade, 2018.
[3] VIANA, 2018.
[4] GORZA; BECHER, 2020
[5] COMPUTERWORLD, 2018
[6] SILVA; VIEIRA, 2021.
[7] SANTOS, 2021.
[8] BARBOSA, 2021.