A VIDA É UMA GUERRA
Estratégias de guerra para o cotidiano.
Wesley Gimenez
RESUMO
Este artigo debate o constante embate existente no mundo atual. Das redes sociais às manifestações de rua. Das salas de aula às brigas de bar. Tudo está em um nível de tensão e gera discussões acaloradas, não só sobre política, mas sobre todas as coisas e assuntos. Esse estado de ?guerra? constante gera animosidades e perigos em todo nosso cotidiano, afetando a rotina diária.
Este ensaio busca demonstrar que táticas usadas em grandes guerras também podem servir em plano micro, sendo adaptadas para a proteção pessoal e familiar. Conclui-se ao final que a vida necessita tanto de estratégias quanto uma guerra e que ambas possuem polos dominadores e dominados. A escolha de que lado se fica depende das estratégias que se usa.
Palavras-chave:
Em todo o tempo vivemos uma luta constante. Ao nascer, crescer e nos desenvolver lutamos contra as notas baixas na escola, os valentões, a pobreza, os jogos de conquista amorosos, tudo exige esforço e estratégia. O texto bíblico de Jó, capítulo 7 diz algo interessante: ?Porventura, não tem o homem guerra sobre a terra??[1]. Nossa vida é uma luta constante, e desse modo, exige estratégias de guerra para manter-se à salvo e com possibilidades de sobrevivência e sucesso em um universo competitivo.
Robert Greene[2] também chega a essa conclusão em seu livro ?33 estratégias de guerra? quando diz ?superficialmente tudo parece bastante pacífico, mas, por baixo, é cada homem e mulher por si próprio?, e ainda ... ?a cultura pode negar esta realidade e promover um quadro mais gentil, mas sabemos e sentimos isto em nossas cicatrizes de batalha?.
Essa é uma das percepções que, apesar de não estar isenta dos erros do ?senso comum?, ainda estão presente em todas as camadas sociais. Do morador de rua, que luta pelo pão e pelo lugar para passar a noite, ao magnata que ?arrisca a vida? no mercado financeiro, todos combatemos contra inimigos diversos em nosso dia a dia. Fazemos guerra contra nós mesmos (hábitos, preconceitos, mentalidade) e contra os outros (divergências sociais, políticas, religiosas). Vivemos uma guerra constante.
Como vencer? Como ser capaz de suportar as batalhas e acreditar em uma ?vitória final? sobre todos os desafios que nos forçam a cerrar os punhos e erguer a guarda? Talvez, observar como as estratégias de guerra e as táticas de batalha se desenvolveram, pode auxiliar a nossa capacidade de superar nossos adversários.
Há quem considere a guerra algo necessário. O fundador da Nationsoft e Mestre em Gestão por Stanford Sérgio Cavalcanti[3] referência o livro War! What?s it good for? de Ian Morris e sintetiza os argumentos que levam Morris a defender a guerra como necessária para o desenvolvimento da humanidade.
Segundo o estudioso, a guerra cria uma sociedade maior e mais organizada, forçando governos e o próprio povo a se organizarem e a se desenvolverem a fim de sobreviver. A lógica, se aplicada ao contexto da prática marcial, tem validade. Inúmeras pessoas procuram aprender autodefesa a partir de situações de perigo e ameaças. Nesse ínterim, se tornam pessoas mais disciplinadas e mudam suas vidas em diversas áreas, não só nas questões de segurança.
Outro argumento de contrassenso do estudioso é o de que guerras criam sociedades maiores e mais seguras. Por incrível que pareça, a consolidação de grandes estados e territórios conquistados envolve o desarmamento da população e um tipo de monopólio de força bruta que limita a frequência de conflitos de guerra. A exemplo da guerra fria, a possibilidade de aniquilação inibe a ação.
Na defesa dessa lógica, Cavalcanti explica: ?É cada vez menor o número de mortes mundiais anuais causadas por conflitos armados?. Segundo o estudioso: ?era maior a probabilidade de um europeu morrer em uma guerra no século XIX do que é hoje em dia?. A guerra, e o medo dela, podem inibir a sede por violência e concentrar a mediação nas mãos do estado.
O monopólio do poder bélico fez com que grandes estruturas nacionais gerassem sociedades mais pacíficas e complexas, inclusive fomentando riqueza, segundo Morris. Uma ideia associada à de pax romana ou seja, a paz gerada pela força.
Não sei se há base para acreditar em todas as premissas de Morris, apresentadas por Cavalcanti, porém, é possível destacar que é convincente a ideia de que o medo da guerra e o uso desta fez com que o mundo se organizasse, se desenvolvesse e criasse mecanismos de sobrevivência baseados no medo de um conflito aniquilador.
Em nosso cotidiano, o desejo pelo progresso nos faz trabalhar mais, buscar maiores oportunidades, assumir riscos, empreender. Algo que exige estratégia. No meio do caminho, riscos marginais se assomam, o crescimento populacional, o aumento da concorrência, a necessidade de proteção, segurança, saúde e estabilidade.
Enfrentamos dia a dia as dúvidas e medos típicos de um grande território de batalha. Precisamos decidir onde concentrar nossas forças, quando recuar, quando atacar sem medo e quando unir forças para uma conquista maior. Saber quem é aliado e quem é inimigo, ter cuidado com espiões e armadilhas. A vida, portanto, é como diz o sábio Jó: uma guerra, com todas as suas nuances.
Durante o treinamento militar e marcial busca-se desenvolver no soldado ou no artista marcial uma mentalidade preparada para o combate. Utilizando o treinamento dos famosos fuzileiros navais americanos, o autor Artur Bracagioli[4], da escola militar das agulhas negras, destaca o valor de uma ?mente combativa? a partir de um treinamento que utiliza diversas estratégias, tais como:
1) Uso de imagens: Vídeos, imagens, recursos visuais que auxiliem o soldado/cidadão a entender o que tem de enfrentar em suas batalhas diárias. Uma mentalidade ?caveira? vai precisar visualizar suas lutas, os riscos e conhecer as estratégias do ?inimigo?. Por isso somos adeptos de uma evolução constante nas artes de defesa pessoal. Engessar uma arte marcial é condená-la a se tornar um artigo de decoração.
2) Uso de recursos: Ser técnico, forte e rápido é algo desejável. Tanto no aspecto físico quanto no intelectual, no tino para os estudos e negócios. No entanto, diante dos diversos tipos de batalhas e oponentes, é preciso investir em recursos e saber utilizar todos os disponíveis. Para um ?caveira?, uma caneta é uma arma, e uma faca pode se tornar a extensão de seu próprio corpo, equalizando sua força contra alguém mais forte ou múltiplos atacantes.
Na vida, equalizar projetos, estudos, capacitações e treinamentos, além de adquirir leituras e boas companhias e networking equivale a todo esse uso de ?armas? para a guerra cotidiana.
3) Confiança, Proatividade e Condição Física: Aliado aos recursos necessários, ter confiança em si mesmo, ser capaz de contar com as pessoas certas, ter proatividade, tanto na luta quanto nos estudos e trabalho, e manter-se sempre em boa condição física são elementos essenciais e estratégicos para a vitória em todos os ?campos de batalha?.
Sem confiança, o ?Hulk? vira um bebê, sem condição física, o mais corajoso vira um suicida, e sem proatividade, o mais talentoso se torna um covarde.
Robert Greene também traz ótimas dicas. Dentre elas, selecionei as que poderia ser úteis para essa pesquisa sobre a guerra cotidiana: 1) Escolha suas batalhas com cuidado: isso significa que há lutas que não se deve travar. No Krav Maga ensino que é preferível a fuga a entrar em uma luta desnecessária ou excessivamente perigosa.
Não é feio fugir, o feio é apanhar por querer ?parecer? corajoso diante de um risco iminente. A melhor luta é aquela em que não lutamos. Greene diz ?Ao resistir à tentação de reagir a um agressor, você arruma um tempo precioso para si mesmo ? tempo para se recuperar, pensar e ganhar perspectiva. Às vezes você consegue mais se não fizer nada?.
No dia a dia, há situações em que lutar traz um prejuízo enorme, não importa quem vença. Tanto em negociações quanto na busca por uma melhor colocação no mercado de trabalho ou a disputa por um cargo, causarão estresse e conflitos que, na maioria das vezes, é preferível evitar. A discussão e a inimizade evitada hoje pode ser a indicação para um posto estratégico amanhã. Saiba quais batalhas travar. Nem sempre essa história de ?não levo desaforo pra casa? funciona.
2) Vire a mesa e ?Crie uma presença ameaçadora?: seja capaz de dar o primeiro soco, de ser o primeiro a atacar se preciso. Alie proatividade e confiança, e uma vez que decida que não há outro jeito, faça isso com toda sua força e habilidade, sem deixar margem para reações.
Robert Greene é genial quando orienta ?A melhor maneira de combater agressores é impedi-los de atacar você primeiro. Construa uma reputação: você é meio maluco. Combatê-lo não vale a pena. Isso vale para as artes marciais, para andar no metrô no horário de Rush e também para cruzar sozinho aquela rua perigosa.
3) Atinja-os onde Dói: Essa, é sem dúvida, a minha preferida. ?Todo mundo tem uma fonte de poder da qual depende?[5]. Um conhecido seriado do famoso Guilherme del toro chamado no Brasil de ?caçadores de Trolls?[6] tem uma regra de treinamento para os caçadores, na verdade, a terceira regra: ?Na dúvida, chute as bolinhas?. É a melhor dica em um combate. Seja capaz de atingir uma área sensível, se for necessário. Isso também vale para o mundo dos negócios tanto quanto para a defesa pessoal.
É claro que existem outras dicas e estratégias que poderiam ser oferecidas, mas tornaria este artigo longo demais. Meu livro ?mentalidade caveira? aprofunda muito mais essas estratégias e oferece perspectivas ainda mais interessantes sobre a necessidade de vencer nossas batalhas diárias com uma mentalidade totalmente diferente da que cerca 95% das pessoas.
Ser estratégico vai definir, ao final, se você pertence aos 5% que dominam ou ao restante que é dominado. A escolha dos preguiçosos é a de transferir responsabilidades a outros. É muito mais fácil deixar que decidam por você, imitar outros e não se arriscar. Crescer dói. Vencer dói. Não há vitória sem batalha.
Este artigo destacou a semelhança entre os desafios cotidianos e as características de guerra. Conclui-se que a Guerra pode gerar efeitos negativos e positivos para a humanidade como um todo, porém o preço é alto. Assim como destrói vidas humanas e gera dor, a guerra também consolida a segurança de um povo, provê complexidade e desenvolvimento, tanto econômico quanto bélico, além de maior organização da sociedade.
Todos os dias pais e mães de família enfrentam a ?guerra? cotidiana de sair pela manhã em busca de qualidade de vida e sucesso. Todos lutam por um ?lugar ao sol?. Do mais pobre ao milionário, todos enfrentam as dificuldades e os riscos de se viver em sociedade. Em se submeter a regras e domínio estatal, na eterna busca do ?bem comum?.
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Os medos nos igualam a soldados em campos de batalha. Uma eterna corrida contra inúmeros inimigos que querem nos destruir. Desde o marginal trombadinha ao político corrupto e de discurso sedutor. É preciso cultivar estratégias, desde uma presença ameaçadora a entender quando a melhor solução é fugir. Sobreviver em tempos de guerra é um desafio. E ser capaz de, sobrevivendo, ainda proteger outros, é coisa de ?Caveira?! Shalom!
REFERÊNCIAS
BRACAGIOLI, Arthur. Mentalidade de Combate. 2019. Monografia ? Graduação em Ciências Militares (AMAN ? Academia Militar das Agulhas Negras-RJ) Disponível em: < chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/viewer.html?pdfurl=https%3A%2F%2Fbdex.eb.mil.br%2Fjspui%2Fbitstream%2F123456789%2F6040%2F1%2F6379.pdf&clen=313585> Acesso em 11.Nov.2021.
CAVALCANTI, Sérgio. Para que servem as guerras? 09.Jan.2020. Disponível em: <https://exame.com/blog/sergio-cavalcanti/para-que-servem-as-guerras/> Acesso em 10.Nov.2021.
GREENE, Robert. 33 estratégias de guerra: aprenda com as batalhas da
história e vença os desafios cotidianos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
DEL TORO, Guilhermo Caçadores de Trolls: Contos de Arcádia. Série. 3 temporadas. DreamWorks/Netflix, 2016.
[1] BÍBLIA, Jó 7.1a
[2] GREENE, 2011, p.15
[3] CAVALCANTI, 2020.
[4] BRACAGIOLI, 2019
[5] GREENE, 2011, p.10.
[6] DEL TORO, 2016.