A visão sobre a Polícia em seus erros e acertos
Wesley Gimenez
Este artigo trata a visão da sociedade sobre as polícias. Tanto examinando seus erros quanto seus acertos, observando como a mídia lida com os fatos envolvendo violência policial e como é necessário maior preocupação com treinamento, capacitação e desenvolvimento de uma estratégia formativa, que prepare o corpo e a mente do policial e auxilie os que defendem a sociedade a não serem transformados em vilões pela própria sociedade. A solução não é simples, nem fácil.
Exige um esforço conjunto e uma incessante preocupação em identificar os maus policiais, treinar e valorizar os bons e mostrar uma polícia que tem capacidade de interagir com a população sem imputar medo e desconfiança, e sim, segurança e proteção. Quem tem que sentir medo da polícia é o bandido.
Palavras-chave: Polícia. Segurança. Medo. Ação policial. Abuso. Mídia.
No último dia 18 de maio, um fato trouxe à tona novamente a questão da morte de policiais no Brasil. Os policiais rodoviários Márcio e Raimundo socorriam um veículo enguiçado na BR 116 quando foram surpreendidos por um homem que, roubando uma das armas dos próprios policiais atirou contra os agentes, matando-os. O criminoso foi neutralizado por um outro policial que passava à paisana.
Não se sabe a motivação para o ataque, no entanto, é importante pensar em como aqueles que nos defendem estão sendo cada vez mais alvos de perseguições, tanto da mídia quanto da própria sociedade que defendem e ainda têm de sofrer ameaças e baixas em seus quadros em razão da ousadia e da sensação de impunidade de bandidos e do crime organizado como um todo.
Por outro lado, para além dessas pressões há a questão do treinamento, mental e físico, de policiais e demais forças de segurança para conter ameaças (em potencial e iminentes) em seu proceder cotidiano. Assim como a morte dos Policiais Rodoviários Federais Márcio e Raimundo comoveu o país, a ação de PRFs, também no Nordeste, em Sergipe, está sendo investigada por causa da morte de Genivaldo, que conduzia uma moto sem capacete e foi abordado.
Na abordagem, a agitação de Genivaldo, a presença de familiares, a tensão do momento, a resistência, a incerteza de como e com qual limite agir, levou os policiais a introduzir Genivaldo no Porta-malas da Viatura e utilizar gás lacrimogênio para contê-lo. Não há como emitir parecer com apenas um pequeno núcleo de informações recheadas de tendenciosidades (de um lado e de outro).
Cabe apenas analisar o que poderia ser feito, em termos de ação policial e defesa pessoal, técnicas marciais, para que Genivaldo pudesse ser contido sem a necessidade da ação de colocá-lo em ambiente fechado com gás lacrimogênio e/ou gás de pimenta.
Na introdução deste artigo temos 2 fatos, duas ocasiões protagonizadas por Policiais Rodoviários Federais. Em uma eles são Heróis, na segunda, são julgados como Vilões.
Como equilibrar e entender isso? Como avaliar o procedimento de uma abordagem ou de uma ação policial em stress alto? E ao balancear as reações, por que a morte de Genivaldo (de forma alguma a diminuindo) teve tão maior repercussão do que o assassinato (já comprovado) de dois policiais igualmente pais de família, trabalhadores e cheios de planos para o futuro?
Segurança Pública também é área de interesse do Krav Maga, pois o que nos interessa é que todos, independentemente se tem ou não farda, sejam capazes de se defender e, no estrito cumprimento do dever legal, ser capaz de agir dentro do Uso Progressivo, Diferenciado e Eficiente da Força.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021 destacou que, em 2020, foram mais de 700 Policiais mortos. As causas variam entre confronto em serviço, fora, suicídio e a Covid-19. O número é cerca de 10 vezes menor do que no Estados Unidos, por exemplo. Cerca de 65% dos policiais eram negros e possuíam entre 35 e 39 anos. Quase 86% morreram por armas de fogo. A composição das polícias é de 42% negra, ou seja, policiais negros são mais vulneráveis à violência.
Apesar da minha reticência com relação ao modo de análise dos dados deste anuário e da tendenciosidade da escrita, é preciso atentar para a conclusão de Olga Câmara ao analisar o assunto: ?Uma polícia violenta, mas que também é vítima da criminalidade. Esse é o retrato explanado no Brasil, através do Anuário Brasileiro de Segurança Pública?.
Violenta, pois, além de ser a polícia que mais morre, também é a que mais mata. Foram 6.416 vítimas fatais de intervenções de policiais civis e militares da ativa, em serviço ou fora em 2020. São quase 18 mortes por dia. O que mais chama a atenção no anuário de 2021 é que foram mapeadas 50 cidades onde há maior índice de Mortes em Decorrência de Intervenção Policial (MDIP). Essas cidades concentram-se em estados como SP e RJ, mas também no Sergipe e Ceará, onde ocorreram as mortes de Genivaldo, Márcio e Raimundo, respectivamente.
Diante desses pontos, é possível perceber que estamos vivendo em uma sociedade que apresenta inúmeros desafios de segurança. Seja na proteção oferecida pelo Estado, seja a proteção ao próprio Estado, na figura dos agentes da lei assassinados. O cerne da resolução passa por treinamento especializado para policiais, na busca pela letalidade como último recurso, ainda que pronto a ser utilizado, se a situação exigir. Além disso, passa pela capacitação na abordagem, na relação com a população e no uso progressivo e diferenciado da força.
Por fim, mesmo que tudo ainda possa ser resolvido pelo treinamento e capacitação das forças de segurança. Ainda há um grave problema: a alienação midiática. Como referido na introdução, ainda que os dois casos envolvendo PRFs sejam importantíssimos, apenas o de Genivaldo ocupou a exposição midiática que os dois eventos mereciam. Ainda mais quando se sabe que, no primeiro, não há dúvidas de que foi assassinato.
Entre 2006 e 2007 eu convivi com ameaças diretas de morte. Era a época das ?mega-rebeliões? e tanto policiais militares, quanto civis e agentes penitenciários (hoje, policiais penais) eram mortos e emboscados. Foram 59 agentes de segurança pública entre 12 e 20 de Maio de 2006.
Uma busca rápida pelo Google acerca do assunto vai resultar em uma assombrosa quantidade de reportagens tentando dizer que o PCC estava era só ?reagindo? à violência policial. No entanto, quem estava lá, vivendo o dia a dia, ouvindo os sentenciados chacotearem com um ?vai morrer? anônimo no meio da massa enquanto se entrava no pavilhão, sabe que não era ?reação? coisa nenhuma.
O fato é bem o que Olga Câmara, mais uma vez acerta:
a imprensa ?desrespeita quem põe a própria vida em risco? e cria uma alienação midiática, de forma negativa, que transforma os policiais nos ?vilões? e faz com que estes fiquem mal vistos perante a sociedade brasileira. Isto influencia diretamente nos números absurdos de criminalidade, pois a cultura criminal é criada e disseminada pela mídia brasileira, que passou a estimular, literalmente, em verso e prosa o crime e a sua subcultura. Em síntese, a sociedade não vê os policiais com bons olhos, o policial acaba sendo tratado igual a ?bandido? e a mídia só repercute os episódios desastrosos que denigrem a imagem dos policiais. (grifo nosso).
Não há ataque à mídia na afirmação de que esta não gosta de policiais. É a constatação de um fato. Em parte, a razão é em decorrência de um jogo político, de outro, porque a mídia tenta exercer controle sobre a sociedade, da mesma forma que o Estado utiliza a polícia como controle social. Além disso, deve-se lembrar que, em grandes emissoras, jornalistas não sabem nada acerca da ?pobreza? e da ?necessidade? de que tanto falam. Assim, suas afirmações são o idílico lido em livros e romantizado por uma ?luta de classes? que, na verdade, eles querem que se mantenha assim mesmo, dividida e subdividida ao máximo possível. Prosperidade e Igualdade não dão Ibope.
A questão é: quem ganha quando um policial morre? Quem ganha quando um policial se torna corrupto? Quem ganha quando um policial mata sem utilizar-se do estrito cumprimento do dever legal ou da legítima defesa? Ao final, o pouco treinamento especializado, a baixa remuneração e o contínuo achaque da imprensa só pioram o modo como a relação polícia-sociedade se mantém. A situação não tem soluções fáceis, é uma total reestruturação, tanto nos programas de treinamento policial pelo país como na cultura de um povo, a começar pela sua vitrine: a imprensa.
Segundo pesquisas, ao mesmo tempo em que 70% da população enxerga que a polícia comete abusos, 64% acreditam que policiais são vítimas de criminosos. Mais da metade dos entrevistados tem medo de violência policial. Seria conveniente creditar isso à falsa impressão trazida pela mídia, mas a culpa também é da própria polícia. É preciso uma interação maior, mais apoio da mídia e demonstrações de força e empatia na mesma medida. Só assim, heróis cessarão de serem transformados em anti-heróis e se deixará de gerar destaque ao erro em detrimento aos muitos acertos.
Este artigo destacou a visão da sociedade e da mídia sobre a polícia. Profissionais de segurança pública precisam cada vez mais de treinamento mental e físico para adaptar-se à realidade de um mundo cada vez mais exposto nas redes sociais e nos veículos de comunicação de massa. É preciso saber quando e como agir. Ser preventivo e ao mesmo tempo ter capacidade letal sempre à postos, para ser utilizada em último caso, mas sem receio de ser transformado em monstro a partir do saque da arma.
Para tanto, treinamento e capacidade mental de reação, são essenciais para que todos, do guarda municipal ao policial federal, sejam capazes, dentro das suas esferas de atuação e perigos enfrentados, ser capazes de vencer os obstáculos visíveis e invisíveis, lutando contra o crime, além de preservar a imagem da corporação, sendo capaz de superar as impressões construídas, intencionalmente ou não, pela mídia.
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Quem ganha com uma polícia valorizada e bem treinada é o próprio cidadão, o que inclui o jornalista que deturpa a manchete. Quem ganha são os bons policiais, que identificam rapidamente o mau policial e o afastam de seus quadros de pessoal. Quem perde é o crime e os levantes políticos que jogam com a vida das pessoas levando-as a acreditar que o Estado pode protegê-las de tudo, mesmo vendo todos os dias, que a violência não perdoa sequer quem é responsável pela proteção da sociedade. Shalom!
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