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LIDERANÇA CAVEIRA

Quando é preciso tomar a iniciativa.

 

Wesley Gimenez.

 

 

RESUMO.

 

Este artigo trata de um tema necessário em momentos de crise: liderança. E não se trata de qualquer liderança, mas uma liderança que é capaz de tomar decisões em momentos complexos e de instabilidade. A capacidade de influenciar pessoas a agirem de acordo e em uníssono pode determinar o destino de todos em uma crise de segurança.


É preciso que um líder seja capaz de ter proatividade, influência, assuma a responsabilidade e se envolva diretamente no problema, transmitindo segurança e sendo capaz de assumir riscos e determinar a melhor rota de fuga ou a melhor forma de reação. Líderes Caveira existem e são observados na atualidade e na história. São adaptáveis à situação, tomam iniciativa e são corajosos e determinados, sendo capazes de agir e delegar tarefas, mantendo a si próprio e a sua equipe ou família a salvo.


 

Palavras-chave:

 

 

 

1        INTRODUÇÃO

 

 

O medo paralisa as pessoas. E essa paralisia, por vezes, pode custar a vida de alguém, a depender da situação. Imagine que você desperta à noite com um barulho. Estão tentando entrar em sua casa. Você pega o telefone, tenta ligar para a polícia, mas sabe que não haverá tempo para a viatura chegar antes que entrem em sua casa. Sua mulher acorda assustada, seus filhos estão no quarto ao lado. Você precisa agir, mas está com medo.


A situação é complexa e cada um pensa em fazer algo diferente. É preciso assumir a liderança, tomar decisões, delegar tarefas. Mas, como liderar em uma situação de crise? Como determinar as prioridades e escolher quais riscos correr? E se ao invés da sua família fosse a empresa onde trabalha? Ou a escola onde estuda? E se ao invés de assaltantes, houvesse atiradores? E se fosse um psicopata atacando pessoas aleatoriamente? Ou um dos funcionários, em surto, tocando fogo no local?


Todas estas situações demonstram crises e momentos de tensão em que cada segundo conta, em que tanto a hesitação quanto a precipitação podem custar vidas. Nesse momento, a liderança e a capacidade de raciocinar em meio a uma onda de cortisol bombardeando o cérebro e impedindo de pensar claramente são diferenciais para a vida e segurança própria e a de terceiros.

É sobre esse tipo de liderança que vamos tratar.


Existem vários nomes para ela, contudo, academicamente podemos descrevê-la a partir da teoria de Blanchard e Hersey[1], descrita como ?Liderança Situacional?.

 

2        SALVE-SE QUEM PUDER?

 

A liderança situacional é determinada pelo momento, pela situação. Nessa perspectiva, não existe um estilo único de liderança que caiba a qualquer situação. Na verdade, ?a liderança é determinada pelas características pessoais do líder, pelas características de seus subordinados e pela situação em que a liderança está ocorrendo?.


Em resumo, isso significa que, em uma situação de crise, os personagens principais do drama são: O líder e quem o segue. Quem determina o estilo de liderança é a própria crise. Há pessoas que precisarão de um tapa na cara para se mexerem, outras precisarão ser carregadas, a outras bastará olhar e todos os passos serão seguidos como que por telepatia.


E quem comanda essa orquestra de motivações? O líder situacional.

James C. Hunter[2], no clássico livro ?O monge e o executivo? destaca que a liderança é a arte de influenciar pessoas. E essa influência é capaz de fazer com que as pessoas sejam direcionadas a aceitar a visão e o direcionamento do líder, realizando a vontade deste como se fosse a sua própria vontade. Em momentos de pânico, de perigo iminente, conseguir influenciar as pessoas à sua volta para uma ação coordenada, pode definir a vida ou a morte da equipe que se forma em torno do líder.


Dale Carnegie, ao descrever o poder do líder declara: ?Não importa se um líder toca apenas um indivíduo ou muitos: O poder que ele possui para mudar o mundo não deve ser subestimado?.[3] Por isso, tanto reconhecer um líder quanto saber desempenhar a liderança em tempos de crise é importante para a segurança pessoal e da equipe. No caso da invasão de sua casa, o líder é você e sua equipe é sua família. No caso da empresa, a equipe pode ser quem trabalha com você naquele dia. Na escola, podem ser seus colegas de classe ou seus alunos. Em momentos de crise é que se reconhece um verdadeiro líder caveira.


Um exemplo interessante é o de Ernest Shackleton[4], que em 1915 conseguiu sobreviver com 28 pessoas à uma perigosa jornada pela Antártida. 1500 km longe de qualquer outro ser humano, o navio ficou preso em um banco de gelo. Shackleton teve que liderar essa equipe de forma que, 10 meses e quase 1500km depois, eles passaram pelo inferno, de ventos de mais de 100km/h e temperaturas de 50 graus negativos, e sobreviveram, sem que absolutamente ninguém morresse.


O caso foi contado e analisado por Nancy Koehn, professora de administração de empresas da Harvard, não só pela história impressionante, mas por como Shackleton conseguiu liderar estas 28 pessoas e não perder ninguém. Segundo a pesquisadora, cinco características foram fundamentais: Transparência, Novos contextos e objetivos, Adaptabilidade, Exemplo e determinação.


De forma resumida: Shackleton foi transparente com todos diante da situação, alinhou seus objetivos ao contexto, de forma que novos contextos geravam novos objetivos, adaptou-se, juntamente com a tripulação a cada ambiente e desafio à sua frente, tomando a dianteira e exigindo dos liderados apenas aquilo que ele mesmo podia e devia fazer, além disso, era o mais determinado do grupo. Ao final, os 28 tripulantes se chamavam de ?homens de Shackleton? como uma forma de orgulho pelo líder que os conduzira salvos por dentre o inferno gelado.

Como Shackleton, diante de uma crise, a iniciativa de checar o ambiente, observar rotas de fuga ou meios de combate, ser transparente com a família, equipe, alunos ou colegas, adaptar seus objetivos à mudança da situação, delegar tarefas e tomar a dianteira com determinação serão cruciais para definição da crise, e enfim, para a garantia da segurança de todos.

 

   

 

3        UM LÍDER ?CAVEIRA? QUE MUDOU A HISTÓRIA.


O mundo estava de joelhos diante de Hitler. Em 18 de Junho de 1940 a Inglaterra está sozinha na Guerra e um homem se levanta a fazer um discurso nesse momento de Crise. Seu discurso e posicionamento como líder mudaria a história. Este era Wiston Churchill. Ele se dirigiu diretamente ao povo Britânico para que continuasse a luta, mesmo com todos pensando em um acordo com o inimigo.


O peso das palavras de Churchill mostra como um líder precisa se posicionar diante de um perigo iminente e defender a sua equipe, família ou povo.

Neste momento de crise, espero que me seja perdoado não falar hoje mais extensamente à Câmara. Confio em que os meus amigos, colegas e antigos colegas que são afetados pela reconstrução política se mostrem indulgentes para com a falta de cerimonial com que foi necessário atuar. Direi à Câmara o mesmo, que disse aos que entraram para este Governo: «Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor». Temos perante nós uma dura provação.


Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento. 

Perguntam-me qual é a nossa política? Dir-lhes-ei; fazer a guerra no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus possa dar-nos; fazer guerra a uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos. -; essa a nossa política. 


Perguntam-me qual é o nosso objetivo? Posso responder com uma só palavra: Vitória ? vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque sem a vitória não sobreviveremos.[5]

 

A força deste discurso pode ser ouvida na voz de Gary Oldman, indicado ao Oscar de melhor ator, no filme ?O destino de uma nação?, de 2017. Churchill demonstra o que é liderança situacional, percebendo o perigo, dirigindo e orientando o povo Inglês, colocando sua confiança na certeza de que o povo continuaria a lutar, delegando as tarefas necessárias ao combate a Hitler e tomando decisões difíceis.


O otimismo realista do líder situacional o faz acreditar na vitória e agir de forma determinada em direção a ela. Um líder caveira, diante do perigo, escolhe os riscos que deve correr, junta determinação e coragem ao mesmo tempo em que formula um plano de ataque ou fuga considerando estes mesmos riscos.


Um líder caveira, em uma situação de risco reconhece que não pode dar uma tarefa difícil ao um membro temeroso da equipe, nem impedir que um membro forte se posicione ao lado para o enfrentamento ou exponha suas opiniões diante da situação. Um líder caveira escuta a todos, porém define suas escolhas, direciona recursos e pessoas, delega tarefas, apoia ações e assume responsabilidades e riscos.


Nem sempre liderar em tempo de crise o fará popular. Churchill foi ridicularizado por diversas pessoas após seu discurso. Porém, sua popularidade perante o povo cresceu para quase 90% e ele conduziu a Inglaterra à vitória. Em meio ao stress de uma crise, não se espera do líder que ele seja ?democrático?, ?popular? ou ?empático?. Espera-se que ele resolva, que ele tome a iniciativa e conduza a todos a uma zona de segurança.



4         A LIÇÃO DO 11 DE SETEMBRO.



O ataque às torres gêmeas foi um marco na história recente. O terror tomou conta de toda a Nova Iorque e o mundo assistiu, pasmo, cenas que até hoje causam comoção em milhares de pessoas nos EUA e no mundo. Em meio a essa crise, um prefeito ficou famoso por sua capacidade de liderar, conduzindo, dentro dessa zona de guerra e terror, habitantes, profissionais e recursos para áreas vitais e assim, minimizando o caos instalado.


Rudolph Giuliani dá palestras no mundo todo sobre liderança em tempos de crise. As lições que ele tirou do 11 de Setembro de 2001 o destacaram para o mundo como um líder que soube o que fazer quando tudo estava literalmente desabando. Para Rudolph um líder precisa estar preparado, treinado, ter planos, ser otimista, capaz, comunicar-se bem com a equipe, transmitir segurança e inspirar as pessoas a agir, estando próximas a elas nos momentos cruciais.


Churchill, Shackleton e Giuliani nos mostram o quanto a liderança ?caveira? é uma somatória de características de coragem e otimismo do líder, com apoio de uma equipe treinada e que confia em sua liderança. Da mesma forma, a comunicação, transparência e sinceridade nas relações promovem a influência certa para a tomada de decisões difíceis.


Um líder caveira precisa de iniciativa, coragem e sobretudo uma visão. Antecipar em sua mente as ações e avaliar os possíveis resultados. Após decidido, deve agir com coragem e determinação. Como disse Giuliani:

Um líder deve saber exatamente onde quer chegar. Deve ter uma visão, saber seus objetivos e determinar suas metas. A liderança acontece através das ideias, visão clara e princípios bem estabelecidos e é a partir da visão deste líder que toda a equipe irá segui-lo (ou não!).[6]


As lições retiradas de momentos de crise podem ser um norte para a construção de uma liderança ?caveira?. Quer seja no micro (Família, trabalho) ou no Macro (uma grande instituição, cidade, estado, país), liderar sempre vai exigir coragem, otimismo, comunicação e capacidade de articulação de pessoas e recursos. Quer seja enfrentando bandidos tentando entrar em casa ou terroristas tentando destruir um país, a liderança vai ter de assumir riscos e a responsabilidade pela segurança de todos.


 

5        CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Este artigo conclui que a liderança ?caveira? não é um ?estilo de liderança?, mas a percepção de que o líder preparado, diante de uma situação de crise poderá adaptar seu modo de agir a partir do que a situação exige. A teoria da liderança situacional e Branchard e Hersey se coadunam com essa mentalidade de adaptação à situação de crise, bem como exemplos como os de Churchill, Shackleton e Giuliani reforçam a necessidade de preparação para o exercício dessa liderança ao mesmo tempo em que demonstram o quanto um líder corajoso e comunicativo é vital para o sucesso das decisões tomadas.


Em meio à violência urbana, dentro da instabilidade de um mundo desigual, com a complexidade da natureza humana, que se revela cruel tanto quanto pode se revelar bondosa, é preciso ter uma visão de liderança que inspire segurança. Uma liderança que seja transparente, comunicativa, servidora e ao mesmo tempo capaz de tomar iniciativa, determinada e com capacidade de delegar, inspirar e comandar

Eis a liderança caveira.


??? Uma liderança que é planejada e forjada na crise, nos momentos de instabilidade e para estes momentos. Uma mescla de liderança situacional e gerenciamento de crise. Uma proposta de liderança que se desenvolve por meio de uma mentalidade nova, que inspira e privilegia a sobrevivência diante do perigo, avaliando os riscos e tomando decisões calculadas. Há muito o que dizer sobre isso, mas, esse é assunto para outro artigo. Shalom!

 

REFERÊNCIAS

 

CARNEGIE, Dale. Liderança: como superar-se e desafiar outros a fazer o mesmo. Barueri/SP: Companhia Editora Nacional, 2019.

CHURCHILL, Randolph (ed.), Os Discursos de Churchill, III, Na Chefia do Governo, (tradução de Manuel L. Rodrigues), Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1942. Disponível em: < https://www.arqnet.pt/portal/discursos/maio02.html> Acesso em 13. Out. 2021.

HUNTER, John C. O monge e o Executivo.  Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

MENDES, Fabiana. Liderança em tempos de crise: insights de Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova Iorque. 15.Set.2017. Disponível em: < https://mercadoeconsumo.com.br/2016/01/28/lideranca-em-tempos-de-crise-insights-de-rudolph-giuliani-ex-prefeito-de-nova-iorque/> Acesso em 12. Out. 2021.

RETONDO, Lucas. Liderança Situacional: o que é e quais as suas vantagens e desvantagens? 09. Dez.2020. Disponível em: < https://startupcreator.com.br/blog/lideranca-situacional/> Acesso em 13. Out. 2021.

SOUZA, André. Liderança na crise: a incrível jornada de um time perdido na Antártida. 07.Abril.2020. Disponível em: < https://www.futurosa.com.br/post/lideran%C3%A7a-na-crise-o-que-500-dias-preso-no-gelo-polar-pode-nos-ensinar-sobre-lideran%C3%A7a> Acesso em 12.Out.2021.


[1] RETONDO, 2020.

[2] HUNTER, 2004.

[3] CARNEGIE, 2019, p.21.

[4] SOUZA, 2020.

[5] CHURCHILL, 1940.

[6] MENDES, 2017