VIOLÊNCIA VERBAL E AUTOCONTROLE EMOCIONAL:
Quando palavras não doem mais.
Wesley Gimenez
RESUMO
Este artigo tratou acerca das reações necessárias à violência verbal. A necessidade de autocontrole, estabelecendo uma espécie de ?escudo protetor? e encarando de modo correto quem deseja nos atingir com palavras cruéis são algumas táticas necessárias à autodefesa, tanto física quanto emocional.
Neste artigo, com a ajuda de estoicos e velhos samurais será possível perceber que algumas habilidades são possíveis de serem alcançadas, quando se treina o suficiente para encarar ataques verbais. Conclui-se que treino mental, experiência, tempo e autocontrole são formas de se proteger. Conhecer-se e encarar com serenidade a crítica ou a ofensa é um boa forma de moldar a mente para amadurecer e escapar de doenças emocionais.
Palavras-chave: autodefesa. Insultos. Agressão verbal. Maturidade. Inteligência.
Conta-se a história de um velho e poderoso espadachim que, uma vez desafiado por um oponente mais jovem recusou o desafio sem dizer uma só palavra. A fim de provocá-lo ao combate, o jovem espadachim insultou o grande mestre com toda sorte de ofensas, e assim, buscava-se incitá-lo à luta. Nada, porém, fazia o velho espadachim encarar o jovem.
Os discípulos do velho samurai queriam trucidar o jovem prepotente, contudo, o velho sábio só acenava com um ?deixa disso?.
Ao final, cansado e humilhado o jovem desiste e vai embora. O velho se senta tranquilamente para o chá, e os discípulos o cercam, contrariados. O grande espadachim pergunta: __ quando alguém te oferece um presente, e você o recusa. Com quem fica o presente? O mais afoito dos discípulos responde: __com quem o enviou, Mestre!
O sorriso de satisfação do velho samurai foi completado com o seguinte ensinamento: __assim são as ofensas, se você não as aceitar, elas ficarão com que as proferiu. Não atingirão seu objetivo e não farão estragos em seu coração.
Essa parábola nos diz muito acerca do poder das palavras ofensivas.
Em um período em que todos são julgados por aquilo que dizem e em que gerações inteiras reclamam da rispidez com que se tece alguns comentários, bem como questionam velhos ditados e criticam antigos slogans, é importante pensar em como se defender de ataques à honra, à imagem ou qualquer outro tipo de impropério.
Palavras são capazes de ferir? Podem influenciar rumos e destinos? Palavras matam? Como podemos enfrentar o poder nocivo das palavras mal-ditas[1]? O quanto elas nos influenciam a agir ou a deixar de agir? É sobre a necessidade de também ser um caveira diante das palavras que este artigo trata.
A escritora Bárbara Berckham, em seu livro ?como se defender de ataques verbais?, declara o quanto é comum as pessoas serem vítimas de respostas mal-educadas, da agressividade no falar de alguém ou mesmo no trato com pessoas dentro de casa. Muitos sentimentos são descritos, mas a frustração em não saber responder apropriadamente, parece ser a pior sensação.
As agressões verbais costumam ser muito mais incômodas para pessoas que não conseguem reagir prontamente, que ficam mudas e chocadas diante desse tipo de atitude. Em geral, elas não encontram a resposta certa até que tudo tenha passado e então são tomadas pela ira e pela frustração de terem ficado caladas.[2]
Nosso cérebro possui, em seu córtex pré-motor e lobo parietal um conjunto de neurônios apelidado de ?neurônios-espelho?. Stevens Rehen[3], da Universidade Federal do Rio de Janeiro explica que tais neurônios estão ligados à imitação e empatia. É por isso que somos impactados por vídeos de risadas espontâneas e respondemos com emoção a cenas de choro e comoção.
Dessa forma, nossa tendência é reconhecer a afronta e ser impactado por ela. A raiva, o desprezo, a agressividade de outra pessoa nos atingem diretamente e queremos ?refletir?, como um espelho, na mesma moeda, e se possível, em maior intensidade.
Nesse sentido, palavras doem sim, desde que atinjam o alvo e sejam refletidas pelo cérebro antes que a pessoa que a recebeu seja capaz de agir racionalmente, bloqueando uma resposta impensada ou sendo estimulado a intensificar a agressão ou mesmo absorver completamente a injúria sem reagir imediatamente, acumulando stress e raiva que só explodirão quando ?a ficha cair?.
É preciso aprender a proteger-se contra as más palavras e os venenos destilados por inveja, irritação, frustração consigo mesmo ou raiva provindos do coração alheio. Temos que criar mecanismos de autodefesa também para nossos ouvidos e cérebros, de forma a ser capaz de resistir à tentação de revidar impensadamente ou engolir ?sapos? desnecessariamente, correndo o risco de adquirir uma síndrome muito comum em quem ?suporta calado?, a síndrome de burnout.
[1] Que obviamente, também são ?malditas?.
[1] BERCKHAM, 2011.
[1] REHEN, 2012
Há uma grande tentação em replicar o comportamento do outro. A velha frase ?Olho por olho, dente por dente?, tão antiga quanto a história da civilização, uma vez que vem da lex taliones do Código de Hamurábi (1750-1730 a.C.), sempre vem à mente nestas horas[4].
Sofremos da tentação de revidar, de confrontar quem nos afronta. É até ilógico para um expert em artes marciais e autodefesa dizer: não faça isso! Contudo, inteligência marcial e mentalidade caveira são fundamentais para resistir a qualquer agressão, seja ela física ou verbal. Uma das formas de desestabilizar um oponente é exatamente provocar-lhe a ira, e deixar esse efeito te atingir pode gerar impulsos que darão oportunidade e justificativa para uma luta desnecessária.
A autora Barbara Berckham ensina técnicas bastante interessantes. É preciso ser astuto como o velho samurai da história e entender que a força real é serena. Rios são agitados, mas o oceano sempre parece calmo antes da tempestade. Da mesma forma, precisamos nos proteger das palavras cheias de veneno, não-recebendo os ?presentes? que pessoas sem caráter ou cheias de sentimos ruins nos devotam.
Engolir em seco cada ofensa também não é uma boa atitude. Burnout ou ?queimar de dentro para fora? é uma síndrome que atinge pessoas em suas profissões, principalmente as de alto índice de estresse, contudo, é típica de quem assimila grandes turbulências emocionais e tenta conter tudo isso dentro de si, sem válvula de escape. Os sintomas são: nervosismo, alterações repentinas de humor, depressão, esgotamento mental, dificuldades de concentração, insônia, dentre muitos outros.[5]
Berckham ensina sobre um ?escudo protetor?, imaginário, com o qual se pode proteger de ataques verbais. Conheça-se bem, entenda seus limites e suas maiores habilidades e defeitos. A partir daí imagine-se por trás de um escudo invisível, lembre de desafios já vencidos e situações em que conseguiu manter a calma, repita para si mesmo que aquela ofensa não é para você, e imagine que quem a profere é apenas uma criança mimada ou birrenta.
Olhe nos olhos do agressor e mantendo a guarda, seja sereno como o oceano. Seja calmo quando necessário, mas esteja pronto, caso seja preciso, e só mesmo se for estritamente necessário, virar uma tempestade.
[1] MEISTER, 2007
Os estoicos possuem uma filosofia interessante. São muito objetivo e pragmáticos, o que auxilia demais no modo de encarar a realidade. Ainda que não seja adepto de tudo que pregavam, considero-os muito inteligentes. E são exatamente eles que tratam de modo muito sagaz como reagir a ataques verbais. A psicóloga e jornalista Jennifer Delgado elenca 3 dicas estoicas de como responder de forma inteligente uma afronta verbal.
A primeira vem do célebre Epicteto: ?ninguém pode prejudicá-lo sem o seu consentimento, você será ferido no momento em que lhe permitir prejudicá-lo ?. Isso quer dizer que o presente só atinge o objetivo se você o receber. Considere simplesmente negar receber tal afronta como sendo direcionada a você. Coloque-se atrás do seu escudo mental e deixe que o outro descarregue suas frustrações sem o atingir. Veja tudo como quem admira uma tela de TV ou de cinema.
A segunda dica vem do estoico Sêneca: ?Se alguém está se referindo a uma de nossas características, por exemplo, não é um insulto, independentemente do tom usado, é apenas um ponto óbvio?. Se alguém insulta um ?careca? chamando-o de ?careca?, qual é a novidade? Como isso deveria insultar? É óbvio. Dessa forma, sorrir de tal inocência de afirmação e tentativa de ofensa é a melhor resposta. Quem sabe dizer: ?Como você chegou a essa conclusão, gênio?? pode ser uma forma espirituosa de redarguir.
A terceira também vem de Epícteto e orienta a olhar o interlocutor. Basicamente ele está dizendo algo que vemos muito nas redes sociais ?Não aceite crítica construtiva de quem nunca construiu nada?. Ou seja, avalie quem o insulta. Se este não é uma pessoa a ser considerada inteligente, sábia, capaz de oferecer uma opinião relevante, por que reduzir-se ao nível tão baixo da resposta ao insulto? Marco Aurélio, imperador romano disse ?? A melhor vingança não é ser como aquele que machucou você ?.
Dessa forma, avalie-se e tente pensar: ?Quem é o adulto na sala??. Todas as vezes que vejo discussões sem sentido lembro de que crianças costumam debater assuntos bobos ao nível de briga. Um adulto inteligente não discutiria seu ponto de vista com uma criança, nem disputaria atenção utilizando artifícios infantis.
Quando você aceita entrar em uma disputa de ?ofensas?, está sendo tão infantil como quem te ofende. Quem é o adulto na sala? Por óbvio que a inteligência e a sabedoria te aconselharão a não entrar em disputas tolas. Blinde sua mente contra ataques verbais e as chances de encontrar paz são muito maiores. E para adquirir tal habilidade, como qualquer outra, é preciso treino, experiência e tempo.
[1] MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021.
Este artigo buscou desnudar os desafios de suportar ataques verbais e o modo de encarar as palavras proferidas maldosamente. Ser capaz de ser resiliente e inteligente diante de uma ofensa pode fazer grande diferença na sua vida diária.
Não é algo fácil, aliás, temos que tirar da mente a ideia de conseguir algo relevante de forma rápida e sem dificuldades. Mas, isso é tema para outro artigo.
?O único dia fácil foi ontem. É preciso construir-se, moldar-se e aventurar-se diante dos desafios da vida. Quem possui uma mentalidade caveira não esmorece, se adapta e encara cada coisa com os punhos cerrados e guarda alta.
Tudo isso faz parte de um processo maior, o de se tornar ?Caveira!?.
Shalom!
REFERÊNCIAS
BERCKHAM, Barbara. Como se defender de ataques verbais. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
DELGADO, Jennifer. Como responder a um insulto de forma inteligente, de acordo com os estóicos. Revista Pazes. Psicologia e Comportamento. 03. Ago. 2019. Disponível em: <https://www.revistapazes.com/como-responder-a-um-insulto-de-forma-inteligente-de-acordo-com-os-estoicos/> Acesso em 02.dez.2021.
MEISTER, Mauro Fernando. OLHO POR OLHO: A Lei de Talião no Contexto Bíblico. Fides Reformata XII, v. 1, p. 57-71, 2007. Disponível em: <chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/viewer.html?pdfurl=https%3A%2F%2Fcpaj.mackenzie.br%2Fwp-content%2Fuploads%2F2018%2F11%2F3-Olho-por-olho-a-lei-de-Tali%25C3%25A3o-no-contexto-b%25C3%25ADblico-Mauro-Fernando-Meister.pdf&clen=125884&chunk=true> Acesso em 02.dez.2021.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Síndrome de Burnout: o que é, quais as causas, sintomas e como tratar. 2021. Disponível em: <https://antigo.saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-mental/sindrome-de-burnout> Acesso em 01.dez.2021.
REHEN, Stevens. Neurônios-Espelho. Revista Fapesp. Neurociência. Edição 193. Mar.2012. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/o-que-e-o-que-e-4/> Acesso em 01.Dez.2021.
[1] Que obviamente, também são ?malditas?.
[2] BERCKHAM, 2011.
[3] REHEN, 2012
[4] MEISTER, 2007
[5] MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2021.